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Memórias de um Busólogo
 


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Saudações amigo busólogo:

Bem vindo ao blog onde passo a compartilhar com todos os interessados, lembranças de fatos ocorridos comigo, admimirador de ônibus desde a mais tenra idade. Os comentarios aqui escritos compõem lebranças inesqueciveis de um tempo que não volta mais, e se o leitor, por ventura se sentir ofendido de alguma maneira com qualquer tipo de comentario citado, peço desde já desculpas e afirmo que minha intenção não é de nenhum modo desrespeitar alguêm, escrevendo apenas do modo como vi os fatos.

Por a maior parte de tais lembranças terem ocorrido durante minha infância, é possivel que eu tenha escrito alguma informação trocada acerca de nomes de empresas e números de linha, sendo que o leitor pode desde já sentir-se a vontade para me corrigir em eventuias falhas.

No mais, desejo boa leitura á todos e embraquem nesta viagem, rumo á década de 80.

Em memória de: Meu pai, Seu Paulo, tambêm conhecido como Paulão, pois sem ele a vasta maioria destes relatos não seria possivel. Velho Zé, Nequinha, Leandrinho, Seu Zildo, Seu Silvio, Babú e todos os camaradas e conhecidos que já se deitaram com seus antepassados na morte. Vocês fazem falta.

 



Escrito por Ditão pé de meia às 22h57
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O 364/O 365

 

Não tenho boas lembranças acerca do 0 364, a maior parte dos fatos marcantes que posso relatar são ruins, o primeiro me leva aos anos 80, quando eu era obrigado a ir na casa de um tio. Na época, esse tio morava em Parada de Taipas, e havia um ponto em frente a sua casa, várias vezes depois do almoço, eu me sentava na escada e ficava vendo os ônibus passando, vi muitos Gabriela II da extinta Viação Tusa, Amélias da antiga A.V. Brasil Luxo, e como não podia deixar de ser, muitos 0 364 da CMTC. E lá pelas três horas, os ônibus já começavam a passar lotados no sentido Bairro-Centro, o que me deixava tenso, pois eu pegaria um desses para voltar para casa, e assim era, a lembrança mais forte dessa época foi em um dia nublado e frio, estavamos eu, meu finado pai e minha mãe no ponto, e como aquele trecho da Av. Cantidio Sampaio é uma reta só, de longe eu avistei o 0 364 da antiga linha Brasilandia-Correio se aproximando, aquela porra já estava tão cheia que não se enxergava dentro do coletivo, só se avistava vultos, meu pai fez sinal e eu ouvi os freios do ônibus rangendo, era um daqueles vermelhos com o simbolo da CMTC amarelo, o motorista abriu a porta e senti aquele vapor quente e abafado produzido por passageiros em um dia frio, aquela porra estava muito, muito, muito cheia mesmo, e para ajudar, em cada ponto subia um corno. Eu odiava esses ' passeios ' á casa do titio.

Outra péssima lembrança, que eu descreveria como ''Meu primeiro contato com a gentalha'', aconteceu, se não me engano em 1987, era aniversario de uma prima por parte de mãe, que morava no Jd. Santo Eduardo, depois do Capão Redondo na divisa São Paulo – Embú, enfim, localizações geográficas á parte, minha mãe havia ido trabalhar nesse dia, então iriamos para lá de noite. Chegamos na Praça da Bandeira por volta de 20:30 para embarcar na linha Praça da Bandeira-Valo Velho, chegamos no ponto e já havia um 0 364 amarelo e vermelho da viação São Luiz parado lá. Fila ali era coisa desconhecida, o povo se aglomerava sem ordem alguma em torno do ponto. Eu e minha mãe entramos na frente de todos porque os "peões" começaram com aquela historia de: Deixa a senhora entrar que ela tá com criança (eu tinha uns seis anos), até ai tudo bem, mas quando o Busão saiu do ponto, lotado que ele só, um dos 'peões' começou a discutir com outro 'zé povinho' e o motorista parou o ônibus, os outros 'peões' começaram a xinga-lo e exigir que ele colocasse o ônibus em movimento, dai para se instaurar a briga generalizada e alguêm gritar 'ele está armado' foi dois palitos. Não lembro direito o que aconteceu depois, visto que foi tudo muito rápido, mas minha mãe me pegou no colo e disse para o motorista – Abre essa merda que eu vou descer, (estavamos nos primeiros bancos), o motora abriu a porta, não sem antes dizer, conformado – Isso acontece todo dia dona... O que eu lembro mesmo é que só fiquei tranquilo quando saimos da Bandeira e entramos no metrô.

Outro fato péssimo deu-se em meados de 1991, a Viação Canarinho havia inaugurado uma linha intermunicipal: São Paulo(metrô Penha)-Guarulhos(Haroldo Veloso). Eram poucos ônibus em circulação, quase todos 0 364, com aquelas tarifas exorbitantes que só a Canarinho tinha e evidentemente eu fiquei na noia para pega-lo, fiz a viagem em um sábado, desta vez com minha mãe. Geralmente eu saia nestas jornadas com meu pai, mas neste dia meu pai inventou uma desculpa qualquer para ficar em casa e assistir um jogo do 'Curintiá'. Enfim, fomos para o metrô por volta de 14:00, pegamos o O 364 e rodamos por metade da cidade de Guarulhos, pois o tal bairro Haroldo Veloso fica lá na curva de Deus me livre, por falar em Deus, naquela tarde ele abriu o céu de uma ponta a outra, caiu tanta água que até peixe deve ter morrido afogado, a chuva começou quando estavamos em Cumbica, e nos acompanhou até o ponto final, que era no meio de lugar nenhum, tempos depois descobri que o bairro ainda estava sendo criado, dai a falta de infra estrutura, mas o pior veio depois, iriamos voltar no mesmo ônibus que fomos, mas quem disse que ele saiu do lugar? O bicho empacou, literalmente, não havia meio de sair de lá, e continuava chovendo torrencialmente. Ao lado do ponto final daquela linha havia o ponto final de uma linha circular da Transcol, mas não nos servia, pois só ia até o centro de Guarulhos, a compensação foi que a citada linha era composta por uma frota de Gabrielas, então nesse dia, ao menos me esbaldei de ver Gabrielas I e II. Para encurtar a historia, depois de quase duas horas a Canarinho se dignou a mandar um ônibus reserva e finalmente pudemos sair daquele fim de mundo.

Outra péssima recordação sobre o 0 364 se deu nos idos de 1994. No intuito de fazer um trabalho de escola, eu e alguns colegas iriamos até o Shopping Aricanduva. Marcamos de ir em um sabádo, depois do almoço, sem levar em conta que sábado depois do almoço é o horario que qualquer shopping do planeta, e por conseguinte, qualquer meio de transporte que vai para o shopping, fica completamente cheio de gente que não tem nada melhor para fazer em suas vidas cretinas. Estou com raiva assim, porque tinha planejado tudo. Era para ser perfeito, eu e um bando de adolescentes cheios de espinhas na cara iriamos ao Shopping sozinhos! Mas para mim o que importava é que eu iria andar de ônibus, tava pouco me fodendo para o resto, que ingênuo que eu fui... ao chegar no ponto do ônibus no metrô Vila Matilde, já havia uma fila enorme, e nem sinal de que um ônibus iria aparecer, depois de muito tempo eis que estacionou no ponto um O 364 da Viação São Paulo, eu que achei que iria tranquilo, desfrutando a paisagem e admirando o itinerario da linha, fui em pé, espremido, pisado, chutado, esmagado, amassado, prensado contra um banco por uma mulher que, sem brincadeira, devia pesar uns 150 quilos, sem contar a zona que estava aquilo, pois o que acontece se você junta em um mesmo ônibus: adolescentes idiotas, menininhas que pensam que já são mulher e adoram soltar gritinhos histéricos, um punhado de gentalha e um motorista que parece não saber que se você pisa no pedal da direita, o veiculo vai mais rapido? Chapa, aquilo foi um saco, sem contar o pior. Isso sem falar que foi nessa mesma linha que me aconteceu um caso, eu diria vexatório, mas que desta vez aconteceu em um Urbanus, e se o relato aqui é para aproveitar a oportunidade, já que estou mencionando a linha 3731. Foi em 1998, morava eu nessa época, já no lado escuro da lua, e nesse dia eu aprendi a passar por baixo da catraca grande (até então eu só sabia passar por baixo das antigas) e eu ia em uma locadora devolver uns cartuchos de video game (bem anos 90), desci do ônibus da linha 273 N, no caso um Thamco Dinamus, decidido a colocar meu novo aprendizado em pratica, vi o coletivo parado no ponto e pensei '' Vou passar por baixo e ir de ônibus na locadora ''. Subi no busão, me aproximei do cobrador que tinha cara de poucos amigos e pedi em voz baixa se podia passar por baixo, ele nem olhou na minha cara. Julgando que ele não tinha ouvido, pedi de novo, e o desgraçado bradou – Passa logo moleque e não me enche o saco. Puta que pariu, se eu tivesse um revolver, acho que o teria matado naquele momento. Recapitulando, hoje já não existem mais O 364 nessa linha, alias não existe mais ônibus nenhum na linha 3731, aquela porra da martaxa relaxa e goza colocou lotações para fazer este percurso, e se os ônibus já viviam lotados o que dizer das lotações?

Outra situação entrincada com um O 364 deu-se quando fui com meu pai até o Jd. Arpoador, no fundão da Z/O, desta vez fui expectador da cena a seguir: fomos até o ponto final do referido bairro em um gabriela II com capelinha da finada Viação Santa Cecilia, e na volta, no mesmo ônibus, quando seguiamos pela Rodovia Raposo Tavares ( fiquei impressionado de um ônibus urbano pegar uma rodovia ), um O 364 vermelhão da onipresente CMTC emparelhou com o nosso coletivo, aquele seguia para o CDHU Educandario, e fiquei feliz de não estar nele, pois além de lotadão, havia um bando de arruaceiros com metade do corpo para fora do ônibus fazendo a maior zona, mexendo com os passageiros de outros ônibus e fazendo gestos obscenos para que passava de carro, o cobrador do buso que eu estava disse para o motorista: Esses maloqueiros são tudo lá do Educandario, o governo dá casa para o povo e junto vem essa corja. Como disse, em meus sentimentos de garoto de oito anos, fiquei aliviado de não estar lá dentro, compartilhando a 'alegria' daquela pobre gente.

Para quebrar essa corrente de lembranças ruins, passo agora a relatar um caso engraçado: Foi em uma tarde da década de oitenta, havia feito calor naquele dia, e no final daquela tarde, eu havia acompanhado minha mãe ao seu oculista de confiança, que tinha o consultório no Anhangabaú. Ao voltarmos, passamos pelo viaduto do chá para fazer não lembro o que, e minha mãe decidiu que já que estavamos lá, iriamos pegar o metrô na estaçao São Bento, foi quando passamos pela praça do Patriarca. Ao ver tantos ônibus, alguns estacionados, outros de passagem, meu coração já ficou acelerado, pois estava descobrindo novas linhas e novas empresas, por exemplo, foi nesse dia que soube da existencia de uma certa Viação Santa Brigida, com um Amélia que ia para o Jaraguá, ou um Gabriela da Viação Castro que seguia para o Largo da Pólvora ( e eu entendi e li largo da pôlvóra ), mas o que mais me marcou mesmo foi ver um O 364 da Viação Santa Brigida que tinha como destino o bairro de Mangalot ( e por algum tempo eu pronunciava como se escrevia, até que alguêm me disse que o certo é ' Mangalô '.)

Aquilo ficou de tal modo entranhado na minha mente que assim que cheguei em casa, já era de noite, eu peguei meu volante e corri para o muro, pronto para dirigir um O 364 até o tal ' Mangalô ' , como estava escuro, peguei uma lanterna e coloquei na frente do muro, para simbolizar os faróis, no caso o farol, já que o pobre ônibus que eu dirigia era caolho. Mas isso não importava, mesmo caolho o O 364 não podia parar, afinal estava cheio de passageiros que queriam chegar no tal 'Mangalô' seja lá onde fosse isso e que depois eu descobri que era um bairro da Z/O, região de Pirituba. Algo que muito me marcou neste ônibus foi ver naquela plaqueta que fica na frente do buso, dentre outras ruas, que ele passava pela Rodovia Anhanguera, eu fiquei pensando que devia ser uma linha muito longa, pois passava até por uma estrada. Bons tempos aqueles...

A última vez que vi um O 364 em ação foi no ano de 2004, na região da Avenida Angélica, era um ônibus da TUPI , confesso que fiquei muito impressionado de ver um O 364 ainda em circulação, e que operava na linha 875 A/10 ( Aeroporto - Perdizes ), mas até estes já descansam em paz, é muito provavel que a TUPI, assim como as outras, já enfurnaram a linha de Apaches VIP e Millenium's.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h49
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Amélia

 

Foi um dos que eu mais peguei, e portanto, com muitas histórias para contar. Quando ia nos "agradaveis passeios a casa de meu tio" em Taipas, as vezes pegavamos um Amélia da Brasil Luxo, linha 971R: Santana- Estação Jaraguá (atualmente operada pela Sambaiba). Eles tambêm viviam lotados, peguei muitos Amélias da Tabú para ir na casa de um tio lá no Conj.Inacio Monteiro, Antiga linha 3055 Cohab Juscelino-Metrô Itaquera (que a Marta fez o favor de tirar os ônibus e colocar lotação). Aquela era outra linha desgraçada, eram os primordios daquele Conjunto Habitacional e certa vez eu vi em um Tele Jornal que aquela era a pior linha da cidade, chegando a registrar incriveis 60 assaltos em um mês, e era fato que muitos motoristas ali andavam armados, meu tio conheceu um, vulgo Alemão, que levava uma espingarda calibre 12 debaixo do banco e certa vez matou um assaltante. Mas o que quero dizer é que adorava ir lá só para pegar aqueles ônibus, ficava lá na frente vendo o motorista dirigir e achava aquilo o maximo, sem contar que a pintura da Tabú era linda, vestiam os coletivos com saia vermelha e blusa azul, bons tempos aqueles.

Certa vez, não só eu, mas todos os passageiros passamos por um perrengue em um Amélia, aonteceu se não me engano em 1989, quando eu e meu pai estavamos a bordo de um Amélia da linha Metrô Penha-Vila Mara. O motorista, logo no inicio da viagem já dava sinais de que não estava em seu perfeito estado mental, as conversas que tinha com o cobrador e seu jeito de dirigir eram prova disso, até que na Avenida São Miguel, ele surtou ! Um cara em uma Saveiro, ao fazer uma ultrapassagem o fechou e arranhou a lateral do ônibus, parando poucos metros a frente. Pois o motora, depois de xingar toda a familia do homem, parou o ônibus, pegou um revólver 38 e disse ao cobrador, com a maior naturalidade – Eu vou lá matar aquele cara e já volto. É sério, não estou mentindo, ele desceu com a arma em punho enquanto todos no ônibus olhavam perplexos para a cena, sem saber o que fazer ou o que pensar, principalmente eu, então um garoto de 09 anos. Pela janela vi aquele maluco se aproximar do carro e apontar a arma para o cidadão, parece que eles conversaram sobre algo e o motorista da Saveiro deu algum dinheiro para ele, que na maior calma colocou a arma na cintura e voltou para o coletivo como se nada tivesse acontecido, alguns quilometros á frente ele parou na garagem e deixou a arma na portaria. Foi foda, naquele dia pensei que veria a desgraça se consumar, depois, colocando os pensamentos em ordem comecei a imaginar o que aquele motorista faria com o sujeito que tivesse a infeliz idéia de assaltar seu ônibus.

Amélia Volvo: Esse parecia um monstro andando pelas ruas, sabia se impor pelo tamanho, pelo barulho do motor e por ter três portas. Que eu me lembre, foi o primeiro ônibus que andei na vida, não lembro da linha ou do ano, mas tenho certeza que era um Amélia Volvo azul da CMTC. Tenho outras recordações dele, de quando meu tio, recèm casado, mudou-se para o Conjunto José Bonifácio, para irmos lá, pegavamos um Amélia Volvo CMTC, linha Metrô Penha-Conj. J. Bonifácio que na época tinha o número 3749 (hoje este número designa a linha Guaianazes – Terminal V. Carrão). Muitos deles passaram pela Radial, fazendo o trajeto Pça Clóvis- Jd. São Paulo, eu tinha medo desses ônibus pois passavam em alta velocidade, e de tarde sempre estavam com 'pingentes' nas três portas. Um dia querendo enfrentar o medo, pedi para meu pai para me levar até o ponto final, no Jd. São Paulo. O ônibus que pegamos já era daqueles pintados de vermelho (coisas de erundina), meu chapa, aquilo corria, o chofer mal tirava o pé do acelerador, e nessa viagem tive um momento traumatico. Estava sentado naquele famigerado banco que fica de frente para outro banco, e existe em Itaquera um lugar chamado tobogã, ao lado do hospital Planalto, pois era uma descida enorme seguida de uma subida maior ainda, e os caras, para subir engatados, largavam o paú na descida, foi o que o motora do ônibus que eu estava fez, quando eu menos esperava, ele acelerou, eu senti um frio na barriga e o busão começou a chacoalhar, dai veio a subida, como eu estava naquele maldito banco,quase voei para cima do cidadão que estava de frente para mim, o que valeu ali foi que o meu coroa me segurou. Rapaz, peguei um medo tão grande do tobogã, que nunca mais quis passar por lá, e quando ia para a casa do meu tio no Inacio Monteiro (O epsodio do Tabú Amélia) o ônibus entrava exatamente uma rua antes do tobogã, eu suava frio e só me tranquilizava quando ouvia o som da seta sendo ligado, o que indicava que o ônibus não passaria por lá, uma noite que voltava da casa de meu tio, assim que o busão saiu da tal rua antes do tobogã, eu vi um Gabriela I da Viação Ferraz que se dirigia para Calmon Viana, lotado (eram umas 20:00hs) avançar velozmente para o tobogã e no meu intimo me senti aliviado por não estar dentro dele, a última coisa que vi foi ele desaparecer na descida. Hoje, depois de tanto tempo, já não tenho medo de passar por lá, a gente cresce e vai perdendo o medo de coisas aparentemente 'bobas', que significaram muito. Quando me mudei para o lado escuro da Lua e pegava um ônibus para o Metrô Itaquera (Itaquá Cidade Kemel – Metrô Itaquera) obrigatoriamente passava pelo Tobogã, já não sentia medo, mas sempre lembrava daquele perrengue e as vezes olhava para o lado, na esperança vã de ver um Amélia Volvo ou um Gabriela se preparando para descer o morro. Bons tempos aqueles...

O evento mais marcante em um Amélia tem algo de obscuro, foi logo que mudei para Itaquaquecetuba, (que eu chamava de lado escuro da Lua) em 1997. Era a primeira vez que sairia da escola e iria para a casa nova, sai da escola ás 11:00 e fui para o metrô Vila Matilde, para embarcar no ônibus das 11:20 da linha 273N (Cidade Kemel – Metrô Vila Matilde) quando cheguei no ponto lá estava ele, um Amélia da Viação Penha São Miguel, ao vê-lo minha primeira impressão foi: Porra, ainda tem desses ônibus rodando? ( naquela época, embora já admirador de ônibus, não fazia a menor idéia que ele se chamava Amélia) Embarquei nele pela última vez, pois daquele dia em diante nunca mais o vi, era como se o filho da puta estivesse lá só para dizer – Qualé garoto, assim como você não pertence mais a Vila Matilde, eu tambêm não pertenço mais a este mundo, a vida é assim, é triste, mas é a realidade. O pior é que é bem como ele disse...

Os Amélias eram cada vez mais raros de se ver, mas ainda circulavam em 1997/98, lembro que pouco depois do encontro com o último Amélia a circular na linha 273N a Penha São Miguel colocou alguns Amélias na abandonada linha 277M Metrô Vila Matilde - Chabilândia, digo abandonada pois simplesmente não haviam passageiros, durante a maior parte do dia os poucos ônibus que por ela circulavam saiam do ponto final apenas com o motorista e o cobrador e era foda chegar no Metrô no horario de pico da tarde, encarar uma fila enorme na 273N (que naquele tempo tinha apenas seis ônibus no horario de pico e quatro no horario de vale) e ver na fila do Chabilândia, quando muito seis pessoas aguardando. Até a Vila Curuça, as duas linhas tinham trajeto semelhante e lembro de um dia constatar, puto da vida, que naquele pedaço, enquanto os Scorpions e Dinamus da caquética 273N já estavam abarrotados, o Amélia da 277M continuava com sua meia dúzia de gatos pingados.

Um sábado em que para variar, havia uma fila enorme e um ônibus atrasado na linha do Kemel, eu me emputeci e pensei: Vou pegar este tal Chabilândia e ver onde diabos fica isso, depois, pego um ônibus para o Kemel em Guaianazes. E fui, já havia um Amélia parado no ponto que saiu de lá com um único passageiro, eu, e só foi pegar mais gente (um casal) lá para as bandas do cemitério da Saudade. Infelizmente não foi neste dia que descobri onde diabos ficava o bairro que tinha o estrâmbótico nome de Vila Chabilândia. Não sei se por problemas mecânicos ou por sentimento de inferioridade por andar vazio enquanto seus irmãos andavam sempre lotados, o castigado Amélia quebrou logo após passar pela antiga estação de Guaianazes (a nova ainda não havia sido inaugurada). Antes de descer e concluir pela metade meu itinerario original, escutei o motorista dizendo ao cobrador que o motor já estava mesmo muito fraco e o mecânico havia dito que não valia a pena retificar. Creio eu que o mais provavel é que tenham desmontado o motor para aproveitar alguma coisa e encostado aquele valente Amélia em um canto da garagem, abandonado á sua própria sorte.

Antes de ir para o ponto do intermunicipal da Viação Radial que me levaria ao lado escuro da Lua, parei e olhei para trás, o motorista já havia mudado o letreiro para "Reservado" e pensei cá comigo que de fato aquele pobre combatente estava mesmo reservado para um fim patético, após tantos serviços prestados a população (por favor, caro leitor, não me condene por estas palavras finais, tenho depressão e ela as vezes me deixa emotivo).

Foi a bordo de um Amélia que fiz duas descobertas: a primeira é que alcool e direção não combinam e a segunda é que o cérebro humano é nojento quando está esmagado.

Aconteceu por volta de 1993, era sábado, ou seja, dia de andar de ônibus com o coroa (sei que tenho me referido muito ao meu pai desta maneira, quero salientar que este era o jeito de eu me dirigir a ele, de um modo carinhoso, e ele não se importava com isso), pois bem, desta vez eu inventei de conhecer o Jd. Ibirapuera, tive esta lembrança pois algum tempo antes havia ido ao Santo Eduardo e o ponto da citada linha era á frente do ponto do Valo Velho, lá na Bandeira. Então saimos de casa cedo, como era praxe, pegamos o metrô e fomos para a Praça da Bandeira. Embarcamos em um Vitória da São Luiz e fomos embora...eu imaginava que este bairro tinha alguma coisa a ver com o Parque do Ibirapuera, ledo engano de criança, o Jd.Ibirapuera fica lá na casa do chapéu, ás margens da represa de Guarapiranga, o Vitória rodou, rodou, rodou, entrou em muitas quebradas e por fim chegou ao ponto final, que na época não lembrava em nada um lugar civilizado, havia ao lado do ponto final uma padaria e fomos lá para comer alguma coisa, mas assim que entramos no local mudamos de idéia, aquela padaria era tão imunda que até as baratas deviam ter nojo de entrar lá, então fomos para um boteco próximo que tambêm não era exemplo de higiene, mas ao menos parecia que o cara atrás do balcão lavava os copos com água corrente. Meu pai tomou uma cerveja e me pagou um refrigerante, neste ínterim, o Vitória que nos trouxe já havia saido e em seu lugar chegou um Amélia, seria ele que nos levaria de volta á civilização e antes de sair do bairro ele já estava lotado. Assim que entramos na Estrada de Guarapiranga, o trânsito estava todo parado, e fazia um calor insuportavel, no inicio, todos pensaram que era apenas trânsito lento mesmo, mas a ambulância e as viaturas que passaram por nós dissiparam esta hipotese, o trânsito começou a fluir lentamente e mais adiante descobrimos o motivo daquele circo. Debaixo de uma carreta havia o que um dia foi uma moto, e naquele momento era um monte de ferro retorcido, alguns metros á frente o corpo ensanguentado de uma senhorita e abaixo de uma das rodas da carreta, o corpo de um jovem que teve a cabeça estraçalhada como um melão jogado contra a parede, o pior para mim, que estava sentado ao lado da janela é que a policia ainda não havia coberto o corpo daquele infeliz, de modo que assim que olhei para o lado, o que vi foi sangue, uma cabeça destroçada e massa encefálica pra todo lado, havia pedaços de cérebro saindo do nariz do desgraçado, todos no ônibus ficaram horrorizados de ver aquilo, uma mulher teve chiliques e alguns passaram mal, o motorista do ônibus ainda disse em tom de brincadeira para o cobrador - Rapaz, isso deve ter doído muito. A cena era tão dantesca que muitos passageiros reclamaram do descaso do motorista, que houve por bem se calar. Pelo que escutei da conversa dos policias, o casal seguia para a represa de Guarapiranga e o cara da moto fez uma ultrapassagem proibida, as latas de cerveja que estavam em uma mochila ao lado do corpo da moça não deixavam dúvidas sobre o possivel estado etilico do rapaz, mas o que mais me deixou estremecido foi ver o motorista da carreta sentado na calçada com as mãos no rosto, chorando e tremendo. Como o trânsito havia parado de novo, o ônibus parou ao lado de uma viatura e escutei um tira falar para outro, apontando para o chofer do caminhão - Aquele senhor está em estado de choque, eu tentei conversar com ele, mas ele não responde. Fiquei com dó do tiozinho, pois ele já aparentava certa idade, e pelo estado de conservação do seu veiculo, ele parecia ser um bom motorista. Para encerrar esta sessão escatológica, digo que passei o resto do dia com aquelas cenas na mente e só fiquei mais tranquilo depois que o coroa me disse que aquilo não foi culpa do motorista e ele não seria preso por isso, sim, porque fiquei pensando no pobre tiozinho, não nos cadaveres.

A última vez que andei em um Amélia foi por volta de 2002. Quando conheci o grande amor de minha vida, que vive no Jardim Camargo Velho, me utilizava da linha Poá (Cid. Kemel) São Paulo(Estação Itaim) via Ferraz, aquela linha estava sempre vazia e passava por metade do Lado escuro da Lua. O trajeto começava na triplice fronteira (Itaquá, Ferraz, Poá), passava por um pedaço de Itaquá, seguia para Poá, rodava a cidade toda, ia até Calmon Viana (quebrada forte), voltava para o centro de Poá, seguia para Ferraz, circulava pelo centro da cidade, ia até a periferia, voltava para o centro e só então entrava em São Paulo, para rodar por metade do Camargão Velho, dai por fim, depois de toda essa volta do zorro, o coletivo finalmente chegava a estação de trem do Itaim Paulista. Infelizmente em 2002 ele foram aposentados para dar lugar a alguns Vitória, um ou outro Alpha e até um Scorpion, sem falar nesta aberração chamada Micro ônibus. Essa situação não durou muito, pois no fim de 2003, alegando falta de passageiros a Viação Poá tirou os coletivos Padron e deixou só as caixinhas de fósforo que agora vivem lotadas. Um sadico consolo é que durante os famigerados ataques de maio de 2006 o PCC colocou fogo em dois desses ônibus ridiculos.

Se estes Amélia ainda estiverem vivos, com certeza guardam em seus últimos bancos, diversas declarações de amor escritas por um cidadão que ia visitar a namorada e passava a longa viagem escrvendo declarações nos bancos do ônibus, tornando público o amor que sentia por sua morena. Bons tempos aqueles...Só a titulo de curiosidade, eu e o amor da minha vida já não estamos mais juntos. (Mas espero que ela esteja feliz).



Escrito por Ditão pé de meia às 22h47
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O 362

 

Esses eram sucatas ambulantes, quando meu avô materno ainda vivia (Descanse em paz Velho Zé), peguei muitos deles para ir á sua casa no bairro da Casa Verde. Praticamente todos os 0 362 eram da CMTC, mas havia alguns da Viação Santa Madalena, Santa Brigida e Gato Preto, peculiarmente, os coletivos da Gato Preto tinham na lateral esquerda nomes impronunciaveis, tipo " Shormsen", "Ulstinskaya", "Zhaksy" e por ai vai, que diabos era aquilo, para mim é um mistério (e continua sendo). Na minha amada Vila Matilde circulavam dois 0 362 da CMTC, na extinta linha Tatuapé-Vila Gulhermina, só haviam aqueles dois, literalmente caindo aos pedaços, que demoravam pra caramba, meu pai se utilizava deles para voltar do trabalho, eram velhos, sujos e geralmente rodavam só com meia duzia de gatos pingados, a impressão que eu tinha era que ninguém, a não ser meu pai pegava eles, para mim era uma linha mistica pois passavam pelo misterioso 'Largo do peixe', que eu imaginava ser reduto de peixarias na zona leste. Dessa linha posso dizer que recordo do dia que a peguei com minha mãe e uma amiga dela, eu devia ter uns quatro anos, iamos não sei onde, estava chovendo muito e como o ponto ficava distante de onde iamos, a amiga de minha mãe pediu ao motorista, um senhor já idoso: Tio, o senhor pode deixar a gente aqui na esquina? (naquela época ainda se desembarcava pela porta dianteira) eu fiquei impressionado com aquilo e posteriormente perguntei á minha mãe se o motorista era mesmo tio daquela mulher. Dias depois, enquanto brincava de ser motorista, com meu inseparavel volante, obrigava a vizinha, uma menininha da minha idade, a toda hora repetir "Tio, o senhor pode deixar a gente na esquina?" Em outra ocasião, desta vez com meu pai, embarcamos em um desses para voltar do Tatuapé, e me chamou a atenção o fato do coroa cumprimentar o chofer pelo nome. Na hora, em minha mente de menino de 5 anos pensei: Quando crescer, tambêm vou chamar o motorista pelo nome. (realizei este sonho uns doze anos depois, quando mudei para Itaquá e fiquei amigo de alguns motoristas e os chamava pelo nome, á saber: Melância, Mário, Antônio e Seu Madruga) O mais foda dessa viagem é que o 0 362 em questão, um dos componentes da 'Linha fantasma' estava tão baleado, que o assoalho sob o câmbio já havia sido corroido e dava para ver o asfalto passando debaixo de nós, demorei um bocado para entender como aquilo não fazia o ônibus se desintegrar.

Outro fato cravado em minha memória até o presente momento, deu-se quando eu tinha uns oito anos, eu estava na Zona Oeste com minha tia e vi um 0 362 da Viação Santa Madalena que ia para o Rio Pequeno, ele ficou tão grudado em mim que no dia seguinte, logo de manhã,eu já estava prostrado no muro de casa com meu volante, dando asas á imaginação, dirigindo o mesmo 0 362 que eu vira na véspera e como aquele O 362 tinha volante branco e o meu volante era preto, não me fiz de rogado, abri uma lata de tinta branca e pintei o volante (claro que fiz a maior sujeira, minha mãe ficou doidona porque espalhei tinta pelo quintal e meu pai por ter aberto a tinta que ele usaria para pintar o portão). Em certo momento, um operario da fábrica que ficava ao lado de casa e que sabia que eu brincava de ser chofer de busão passou em frente de casa e perguntou: Esse ônibus passa pela Vila Formosa? Ao que eu respondi: Não, esse aqui vai para o Rio Pequeno. Dai ele perguntou onde ficava esse lugar, e como eu não fazia a menor idéia, apenas respondi – Sobe no ônibus que você descobre. Fazia muito frio naquele dia, e estava chuviscando mas isso não me impediu de passar mais de uma hora em cima do muro, dirigindo, amaldiçoando o trânsito e 'levando' passageiros para o Rio Pequeno. Bons tempos aqueles.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h46
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Bela Vista

 

Um dos mais raros modelos a circular na cidade de São Paulo, creio eu que mais raro que esse só o Marcopolo San Remo, pois bem, as recentes descobertas em sites de busologia trouxeram a tona (ah, eles vem de submarino!) algumas lembranças acerca destes coletivos. Lembrei, com certa saudade, dos Bela Vista da Parada Inglesa que conheci na década de oitenta. Como já foi mencionado no relato anterior, eu odiava sair de casa quando garoto, e neste dia não foi diferente. Meu tio descobriu o paradeiro de uma prima que a muito não se tinha noticia, e se propôs a levar minha mãe lá. Se não me engano, essa mulher residia na Vila Constancia. Evidentemente eu não queria ir, mas como era criança, fui por livre e espontânea pressão. Fomos até o Carandirú, e logo na saida do metrô eu vi varios Bela Vista da Parada Inglesa, o que de inicio já me fascinou, pois até então, eu só conhecia o Gabriela, e foi exatamente em um Bela Vista que rumamos para a casa da tal prima. Eu não entendia o porquê daqueles ônibus serem diferentes, meu tio deu uma explicação estapafurdia sobre isso, mas lamentavelmente eu não me recordo o que ele falou na ocasião, o que me recordo até hoje é que aquela frente com mascara negra diferente de tudo que eu já tinha visto, ficou entrevado em minha mente, e tenho certeza que tão logo não sairá.

A última vez que me recordo de ter andado em um Bela Vista foi no começo dos anos 90, em uma ida até o Jd. Limoeiro. Eu não tinha nada para fazer lá, e fui com meu pai, apenas pelo prazer de andar de ônibus e descobrir onde era o ponto final. Sei que era um Bela Vista pelo peculiar formato do câmbio. Sim, porque só o Bela Vista tinha a alavanca do câmbio curvada daquela maneira, eu achava aquilo muito esquisito, e me marcou muito o que aconteceu na Penha. Uma velhota fez sinal, e assim que o motorista parou, o coletivo deu um tranco, depois disso, o chofer não conseguia engatar a marcha, eu fiquei impressionado de ver ele manusear aquele câmbio curvado. Como não estava tendo exito naquilo, o piloto disse para a velha: Não sobe não tia, o carro quebrou! Mais uma vez, eu me quedei pensativo, imaginando se aquela senhora seria mesmo tia do gordo motorista. O mais estranho é que assim que a velha desceu, o cara conseguiu engatar a marcha e sair do lugar (deixando a 'tia' no ponto).



Escrito por Ditão pé de meia às 22h46
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Urbanus

 

Esses ônibus quadradões, que começaram a surgir lá pelos idos de 1987 se popularizaram bastante, é muito dificil uma empresa de ônibus urbanos que não tenha pelo menos um Urbanus em seu quadro, desses, minhas lembranças são mais amenas, e estão em grande parte relacionadas ao interior do Estado, como por exemplo: No começo dos anos 90, em Limeira, a AVA (Auto Viação Americana) operou por algum tempo em conjunto com a Limeirense e como os coletivos vinham da cidade vizinha, vigorava neles o sistema de Americana, o que dava muita confusão no começo, explica-se: Em Limeira, naquele tempo como em São Paulo, se embarcava pela porta traseira, em Americana, o embarque era pela porta dianteira, não sabendo disso, em uma visita á 'Terra da laranja", eu e mais alguns familiares, ao chegar na rodoviaria local, fomos para o ponto, logo passou um Urbanus da AVA, se bem me lembro era o linha 2 São Francisco. Assim que ele parou, inutilmente nos prostramos na parte traseira do ônibus, á espera que a porta se abrisse, a situação já estava ficando embaraçosa, pois não havia um Cristão que nos falasse por onde deviamos entrar, e todos os passageiros nos olhavam como se fossemos bichos do mato, dai eu vi a flechinha pintada ao lado da porta e a inscrição 'Saida', só assim, depois de vexatórios momentos, é que finalmente embarcamos, como se nada tivesse acontecido, e durante toda a nossa estadia em Limeira, nenhum de nós comentou o epsódio...

Outro marco com Urbanus tambêm aconteceu em Limeira, desta vez com um Urbanus da Limeirense, que então tinha faixas verdes claras na carroceria (hoje eles tem uma pintura ridicula), nesse dia, para ir á casa de não lembro quem, embarcariamos em um ônibus da linha 1 (Novo Horizonte-Shopping), e por experiencia própria posso dizer, se você quisesse conhecer Limeira, bastava pegar o linha 1, quem quer que tenha concebido o itinerario daquela linha é um louco! O ônibus roda a cidade toda e atravessa uns 15 bairros diferentes. E ele enche! fica tão lotado quanto os ônibus de São Paulo, há quem diga por lá que essa linha só existe para levar os peões da periferia para os bairros nobres, em parte isso era verdade, mas essa linha já não tem mais esse percurso, da última vez que estive lá, a Rapido Sudeste havia suprido praticamente todas as linhas periféricas da Zona Norte, assim sendo a linha 1 continua existindo, mas já tem seu itinerario simplificado. ( Ainda é operada pela Limeirense)

Para não perder o costume, da última vez que fui para Limeira, tive a oportunidade de viajar na agora linha mais longa da cidade, só para dar idéia de como é a coisa, imagine ficar uma hora e vinte minutos dentro de um ônibus sem estar em São Paulo, ou seja, sem Trânsito pesado, sem congestionamento, sem semaforos em cada esquina, só rodando, rodando, rodando, esta linha tem ponto final no bairro mais pobre e violento da cidade, um tal Ernesto Khul o mais impressionante de tudo é que mesmo assim, diferente daqui, eu não vi nenhum nóia passando por baixo da catraca, lá eles pagam passagem como nós, cidadãos de bem, e isso em um sábado, por volta das 22:00, vai entender. Para concluir, os ônibus desta linha agora são novos, não tem mais que seis anos de uso, são feios e pertencem á Viação Rapido Sudeste. Os Urbanus antigos do meu tempo de criança, com a pintura lateral antiga, hoje só operam nas linhas Tatú-Centro e Marrafow-Centro, essas são linhas especiais, que servem aos bairros rurais de Limeira, e circulam só em horario de pico.




Escrito por Ditão pé de meia às 22h45
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Gabriela Parte I

 

Para mim esse é o prata da casa, os melhores ônibus que já circularam em São Paulo, desde a mais tenra idade, o Gabriela me seduziu de tal forma que até hoje, passo horas á fio na internet procurando fotos e arquivos sobre ele. Como sempre fui louco por Gabrielas, historia é o que não falta.

Não tem como esquecer a dificuldade que os Gabriela da Viação São Paulo tinham em subir a rua aqui perto de casa, eles sempre davam um tranco no meio da subida, e eu morria de medo do ônibus descer de ré. Muito tempo depois eu descobri o motivo. É simples, para começar a 'escalada' o chofer colocava o motor em primeira, no meio da subida, para não fundir a bagaça, ele jogava para a segunda, e nesse meio tempo entre tirar o pé do acelerador, pisar na embreagem, engatar a segunda, tirar o pé da embreagem e pisar no acelerador (coisa de segundos) o velho combatente aproveitava para tossir e tomar fôlego, dai o tranco tão caracteristico! Lembro tambêm de quando ia com minha avó ao Jd. Santo Eduardo visitar minha falecida bisavó, tinhamos que pegar o famigerado O 364 onde aconteceu o incidente da praça da Bandeira, mas nessa época a São Luis já havia substituido a maioria dos 0 364 por modelos Monobloco 0 371, enfim, o que me deixava fora de si, era chegar perto da casa da minha bisavó e ver, já em Embú, o ponto final de uma linha da A.O Soamin composta basicamente de Gabrielas II (porém lembro vagamente de ter visto naquela linha um Gabriela I, o único que nunca vi por lá foi o Amélia), e aqueles Gabrielas estavam sucateados, sempre dando a impressão que se desmontariam a qualquer freada mais severa. Um dia meu pai estava junto, fomos eu, ele e minha mãe, dai ele foi tomar uma cerveja na padaria ao lado do ponto final e me levou tambêm, fiquei o tempo todo olhando para fora, na esperança de ver um, era sábado e haviam poucos carros em circulação, eu já estava achando que aquele dia voltaria para casa sem ver um Soamin, mas estava enganado. Para minha sorte, meu velho não se contentou só com uma Antartica e pediu outra, então isso reacendeu minhas esperanças. De fato, após angustiante espera, um Gabriela laranja e creme da Soamin, coberto de barro e terra encostou no ponto final, dai em diante, enquanto ele esteve lá, eu não vi mais nada ao redor, só fiquei parado, no balcão da padaria, olhando para fora, cobiçando o volante branco, imaginando como seria dirigir aquele ônibus. Cerca de dez minutos depois, o motorista e o cobrador entraram nele e tive que dar adeus aquele Gabriela que saiu fazendo um barulhão de velho combatente que já não aguenta mais o tranco, soltando tanta fumaça pelo escapamento, que em muito lembrava um daqueles carros fumacê de combate a dengue, e para piorar, ele saiu deixando um rastro de óleo pelo caminho, e este não era excessão, lembro que estavam sempre sujos de barro, poeira, e tinham um odor esquisito dentro deles, quantas e quantas vezes eu passei horas no muro de casa 'dirigindo' um daqueles, e minha maior frustração era não ter um volante branco para ficar mais real,o mais triste é que embora este seja um dos Gabriela que mais me marcaram, nunca tive oportunidade de andar em um, quando pedi ao meu pai para darmos uma volta naquela linha, o coroa disse – Para que pegar este ônibus filho? Ele não serve pra gente, ele vai para o centro do Embú. E lamentavelmente, por mais que tenha procurado pela internet, nunca achei uma foto de um Gabriela Soamin. Acredite, seria capaz de dar um braço para rever um Soamin daqueles. (Nota Importante: Recentemente o amigo William, criador do Site Guarubus me brindou com uma enxurrada de fotos da A.V. Soamin, sendo que dentre tais está o tão procurado Gabrielão com volante branco. Assim sendo, agradeço publicamente este ato de boa vontade para com este humilde busólogo e recomendo que visitem seu site - O link consta na lista de favoritos).  Malditamente, quando fui no Santo Eduardo em 2001, a porra da Soamim já havia colocado uns Urbanus Plus com a ridicula pintura da EMTU, e pelo que pude apurar, a Soamin teve recentemente seu trabalho reconhecido e ganhou o descredenciamento da maioria das linhas, assumidas pela sua 'irmã' mais nova a Miracatiba (que dizem tambêm não ser lá estas coisas) o fato é que a última vez que fui para aqueles lados, em 2006, já não havia mais nenhum ônibus por lá, agora aquele trajeto é operado por lotações. Pois é, a dona martaxa anda fazendo escola !

Outro Gabriela marcou minha vida por volta de 1994, quando fui para Itaquá com meu pai, iamos ver uma casa á venda no Pinheirinho, um bairro longe de qualquer local civilizado e onde nem mesmo o careca do Satanás chega muito perto, só que até então não sabiamos disso. Pegamos o trenzão (um trem da série 1600) e desembarcamos na estação de Manoel Feio, que faz jus ao nome que tem. Embarcamos em um Gabriela que pelo estado em que se encontrava, já estava fazendo hora extra neste mundo. O pobre combatente estava tão coberto de barro que era impossivel identificar sua cores, me lembro vagamente de ver uma faixa azul em sua pintura. Levou um século para ele sair do ponto final e enquanto não saia, foi invadido pela fina flor da gentalha. Naquele ônibus entrou de tudo: Homens com gaiolas de passarinho, velhos com varas de pesca, mulheres com bacias cheias de legumes e frutas, e muita, muita gente fedendo! Havia até uns elementos fatiando melancia com facões, comendo lá dentro e cuspindo as sementes pela janela. Enquanto aguardavamos a saida, fiquei olhando por uma brecha no vidro coberto de terra os arredores. Meus amigos, até então eu achava que Gabrielas detonados eram privilégio só da Soamin, mas naquele dia, no terminal de Manoel Feio vi que estava enganado, haviam ônibus que estavam literalmente em petição de miséria, vi um Gabriela que seguia para o Pq. Viviane, que estava mais coberto de lama que todos os outros ônibus ali estacionados, estava dificil até para ler o destino do coletivo. Havia até um Gabriela da Viação Ferraz, com aquela pintura linda que só eles tinham, e que em contraste aos demais, estava limpo e diria até conservado. Por fim o nosso velho Gabi saiu do lugar, ficou completamente lotado no centro de Itaquá, esvaziou pelo caminho e tornou a encher mais adiante, passou por muitas estradas de terra, comeu muita poeira, cruzou com varios outros ônibus em igual situação, sendo que muitos deles seguiam para um bairro com o estrâmbótico nome de 'Pium' e depois de passar pela Curva de Deus me livre, fazer a Volta do Zorro, passar por onde Judas perdeu as botas, pela Conchinchina, e quase chegar no Raio que o parta, quando só estavamos eu e meu pai dentro daquilo, o ônibus parou no meio de lugar nenhum. Com ar desinteressado, o cobrador disse para o meu pai: Aqui é o final companheiro! Meu pai olhou bem para os arredores e disse: Tá brincando, isso é o Pinheirinho? Não vou trazer minha esposa e meu filho para morar aqui não... e não vou nem descer, vou voltar nesse ônibus mesmo. Meu pai explicou a situação para o homem e ele deixou a gente ficar lá dentro, afinal, não havia fiscal, casas ao redor ou mesmo um ordinario boteco daqueles que só vendem pinga e cigarros, nada que lembrasse que ali era um bairro Hoje não circulam mais Gabrielas por lá, a Julio Simões colocou umas caixinhas de fósforo (micro ônibus) para fazer esse trajeto. Dizem que o asfalto já chegou no Pinheirinho, mas aquilo deve continuar sendo um bairro muito feio. Ah, continua não havendo nada ao redor do ponto final, apenas alguns cupinzeiros e uma torre de transmissão de energia. Muito raramente os ônibus saem do ponto final com algum passageiro. Um caso que atesta isso ocorreu na última vez que fui lá, tinha que ir em um sitio resolver uns assuntos e peguei o ônibus até o final, como o lugar havia mudado um pouco em todo este tempo, assim que o ônibus parou eu perguntei para o motorista (Já era um micro ônibus) se lá era o ponto final e ao ouvir minha voz o homem disse surpreso – Eita, ainda tem passageiro ai?... Cada uma não?

Um Gabriela que me marcou muito foi um da saudosa linha Tatuapé-V. Guilhermina, a mesma dos 0 362 , que passou a ser operada pela E.A.O Penha São Miguel. Se antes haviam apenas dois ônibus na linha, agora era um só que ia e voltava, operando um trajeto circular. Essa historia começa em um dia chuvoso, era sábado e eu queria sair de casa para andar de ônibus, tinha uns 09 anos, mas era fim de mês e meu velho estava sem dinheiro para sair por ai, então, chateado, sai de casa para ficar na rua vendo o movimento, casualmente olhei para o chão e encontrei uma nota de 100 'Crúcrús', como a passagem custava exatamente isso pensei: Que ônibus eu e meu pai podemos pegar para pagar uma só passagem? E de imediato lembrei do velho comabatente circular, falei com meu pai, e a próxima coisa que aconteceu foi estarmos no ponto perto de casa esperando o último dos moicanos, que demorou mas passou, então fomos até a Vila Guilhermina e voltamos, foi um trajeto meio curto, mas valeu a pena, posteriormente a Penha São Miguel colocou um Amélia no lugar do Gabriela e mudou seu itinerario, a linha passou a ser Hospital Tatuapé-Hospital Geral Ermelino Matarazo, Cheguei a pega-lô tambêm, talvez só para conhecer o percurso, ou quem sabe, em memória dos velhos 0 362 e Gabrielas que por ali passaram. Logo que mudei para Itaquá, em 1997, vez por outra, quando passava pela Av. Imperador, via o Amélia indo para o Hospital de Ermelino. O que não deixava de trazer a tona velhas lembranças. A linha foi oficialmente extinta em 1998.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h44
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Gabriela Parte II

 

Outro Gabriela que deixou saudades foi o da linha 312 A/10, Lg.da Concórdia-Cohab Anchieta, da extinta Viação São Paulo, que no começo eram Azul e vermelho como os da Tabú e Júrema, depois passaram a usar saia vermelha e blusa creme, e no fim da vida, eram vermelho e branco como os outros, recordo-me que os mais velhos ainda circulavam com o letreiro 'Cohab Pe. J Anchieta' em letras minúsculas, depois foram todos simplificados para 'Cohab Anchieta'. Um dia eu tanto fiz que fui até o ponto final da linha, foi um saco, o ônibus estava tão cheio que não pude ver nada do trajeto e quando dei conta já estava no final, mas não me abalei, tempos depois, voltei lá, dessa vez sim, com o busão vazio deu pra aproveitar o panorama e ainda de quebra ver os loucos Marcopolo da Utinga que faziam final lá perto, meses depois, os primeiros Urbanus começavam a circular na linha, mas os Gabriela ainda tinham espaço,. No século XXI a coisa avacalhou, a Nova Aliança assumiu a linha com um Thamco, um Ciferal e dois Vitória que já estavam só o pó, três anos depois, a Himalaia assumiu o leme e a coisa foi para o brejo, a linha 312A/10 deixou de existir, para dar lugar a linha 3414/51, que ao invés de ir até a Cohab Anchieta, agora tem ponto final na Cidade Lider, em uma travessa da Avenida Lider, e vive tendo seu itinerario alterado. Triste fim para uma linha que era um lixo, mas fez parte da minha infância.

Tambêm lembro dos Gabriela intermunicipais, como esquecer a linha São Paulo(Penha) - São Caetano(Nova Gerty) Da Viação Santa Paula? Tantos sabados eu e meu coroa gastamos em viagens com os coletivos limpos e bem cuidados que usavam saia verde bem escura e blusa de um branco impecavel, era louco cruzar a Zona Leste, chegar a São Caetano e ver mais Gabrielas bem cuidados da Santa Paula e da Viação São Caetano, quando recordo disso, penso que São Caetano deve ter sido a única cidade que soube dar valor ao 'Gabi', não se via um Gabriela sujo, ou vazando óleo, eles tambêm não pareciam carros de combate a dengue com aquele fumacê caracteristico de ônibus mal cuidado (qualquer semelhança entre este comentario e a Soamin não é mera coicidencia). Outro Gabriela muito vivo em minha mente me remete a 1989, em minha primeira viagem a São Carlos, lá rodavam muitos Gabrielas da 'Redenção'. E o que mais me lembra aquele tempo aconteceu quando fui pela primeira vez conhecer o local onde meu pai havia comprado um terreno, no bairro de Cidade Aracy, na ida fomos de carro, com um amigo de meu pai, aquela porra era longe pra burro, ainda era um bairro em formação, havia poucas casas já construidas e só um ônibus que passava por lá, na verdade havia uma linha que atendia o bairro, mas tinha ponto final bem na entrada do lugar, e o terreno que meus pais haviam comprado era no alto do bairro, e por haver pouquissimas casas, apenas um ônibus subia até lá, e tinha até um letreiro diferente, os ônibus regulares seguiam como 'Cidade Aracy', e aquele um tinha como destino 'Cid. Aracy 2º Etapa', e foi ele que pegamos para voltar, lembro que o tio de minha mãe olhou no relógio e apressou: Vamos gente que o ônibus passa 15:15, e lá fomos nós e o proprietario do terreno ao lado que por coincidência tinha ido ver seu lote no mesmo dia. Encostamos ao lado de uma estaca verde com a inscrição ''Ônibus'' e não tardou a dobrar a curva um 'Gabi' usando saia azul escura e blusa branca impecaveis, embora as ruas ainda não fossem asfaltadas. Duas coisas me marcaram nessa hora: Ver meu pai, o tio de minha mãe e o 'vizinho' fazendo sinal (eu pensei: Para que fazer sinal, se é só este ônibus que passa por aqui e o motorista sabe que é ele que vamos pegar?) e a outra coisa que me marcou foi a placa que havia na frente do coletivo "Via ProHab 2, Castelão, Irmãos Correia." Eu fiquei impressionado de ver que em São Carlos a Cohab era Chamada de ProHab (Projeto Habitacional), mas o que me deixou incafifado foi o tal 'Irmãos Correia', eu pensei que os tais Irmãos Correia fossem uma familia muito numerosa, tão numerosa que a empresa de ônibus até informava os ônibus que passavam pela casa deles, isso se refoçou mais ainda quando soube que o ônibus passava pela rodoviaria da cidade, dai pensei que a placa era para avisar os familiares que vinham de fora (é estapafurdio, mas eu só tinha oito anos), depois eu soube que Irmãos Correia era a umar rede de super mercados da cidade.

Recentemente, ao passar no que hoje é o shopping Penha, recordei que antigamente naquele local havia um terminal de ônibus, na verdade uma praça com uma rotatória e varios pontos finais, na primeira vez que passei por lá, ou a primeira lembrança que tenho, não sei o que veio primeiro, vi varios Gabrielas I e II, com capelinha, da Viação São José, com aquele bizonho simbolo de letras V, S, J entrelaçados,. Daquele lugar saiam ônibus para Guaianazes, Parada XV, Jd. Lisboa, Jd. Popular, Vila União, Pq.D. Pedro II, Jd. Zélia e outros mais, depois que inauguraram a estação Penha do Metrô, a maior parte destas linhas foi remanejada para lá, e outras simplesmente foram extintas, e o que mais me marcou neste dia foi ver um Gabriela, não sei se I ou II, da São José, que seguia para Guaianazes, e estava coberto de terra e poeira, quando perguntei o porque daquilo, minha mãe disse que o bairro era muito pobre e ainda tinha muitas ruas de terra, só depois de muito tempo eu entendi o que ela quis dizer com isso.

Já que o assunto é a São José, vou falar das vezes que me utilizei desta empresa, a primeira vez que lembro de ter andado em um Gabi da São José já foi logo para ir até o ponto final, não que eu já tivesse este costume, é que minha mãe me levou ao pediatra, e o tal Doutor Rubens tinha seu consultório quase em frente ao ponto final da finada linha Penha – Vila Ré, não lembro de muita coisa deste dia, o que posso dizer é que na saida do consultório, além de ganhar um pirulito, vi dois Gabrielas parados no ponto final, e eram Gabrielas II, lembro que estes não tinham a traseira curvada.

Me utilizei muito dos Gabrielas que rodaram na linha 273 T (Metrô Vila Matilde-Vila Verde). Na primeira vez que peguei este ônibus, fui com meu velho, apenas no intuito de ir até o ponto final, e no tal ponto havia uma padaria com o pomposo nome de ' Flor de Vila Verde ', lá descobri a melhor coxinha de padaria que já comi até hoje, tal descoberta se tornou um ponto de peregrinação. Ao menos uma vez por mês, eu e meu pai iamos lá só para comer coxinha, devo ter ido uma dez vezes naquele lugar, já éramos até conhecidos dos balconistas, e sempre iamos de Gabriela, uma única vez me lembro de ter ido em um Amélia. Hoje os pouquissimos ônibus desta linha são Vitória e Alpha (quando escrevi isto originalmente os Vitórias ainda existiam, mas hoje a linha esta cheia de Apaches S21 da primeira geração) o ponto final não é mais onde era antigamente (é em frente a uma padaria, mas não a mesma, que fechou). Bons tempos...

Outro São José que trago vivo me leva a década de 80, quando ia na casa de um português, amigo da familia, que não poderia morar em outro lugar que não fosse o Jardim Lisboa, sempre que iamos lá, pegavamos primeiro a finada linha Praça da Sé-Cidade A.E Carvalho (sempre era um Amélia) e depois pegavamos um Gabriela Jd. Lisboa-Pq.D.Pedro, eu gostava de ir lá pois além de andar de ônibus o portuga sempre me dava doces e refrigerantes, afinal, como bom português, ele tinha uma mercearia (e vendia pão tambêm), eu não entendia o que ele dizia (ele ainda tem sotaque forte) nem o que significava uma flâmula escrito 'Benfica' que ele mantinha no balcão. Mas lembro de sair da venda dele e ir para o ponto, lembro de ver surgindo na curva um Gabriela com capelinha, e de embarcar em um ônibus vazio as cinco da tarde (voltavamos no sentido centro, por isso estava sempre vazio). Ao menos esta linha ainda existe...



Escrito por Ditão pé de meia às 22h43
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Gabriela Parte III

 

Uma situação que me traz lembranças ambiguas ocorreu em Guarulhos, quando eu devia ter uns sete anos, é outra ocasião que relato como espectador. Haviamos ido eu e meu pai na casa de um amigo de trabalho dele, o cara morava atrás do aeroporto de Cumbica, e no caminho para lá eu vi um Gabriela I com a tétrica traseira, da viação Poá, que seguia para Cumbica (ele passava pelo paredão), mas o que quero relatar se desenvolve mais a frente. Este amigo do meu pai iria nos levar até um sitio que havia comprado, na divisa de Guarulhos, então entramos em um Corcel daqueles bem antigos, provavelmente o primeiro modelo a ser lançado, e caimos na estrada. No caminho vi varios ônibus de empresas até então desconhecidas: Itaquaense, Transguarulhense, Municipal, e afins, todos Gabriela II, e em uma sinuosa estrada de terra, aconteceu: Primeiro vi uma curva fechada e uma placa que me deu muito medo, pois dizia apenas ''Ponto cego á frente '' eu imaginei que ali era uma travessia de cegos ou coisa do tipo, e pouco antes de chegarmos no ponto cego, um Gabriela II da Viação Vila Galvão, que trazia no letreiro '' Guarulhos-Cabuçu'', lotado surgiu no sentido contrario, o amigo do meu pai meteu o pé no freio e disse: Olha como esse desgraçado entra na curva! De fato, agora, lembrando disso, chego a conclusão que se já estivessemos na curva, a desgraça teria se consumado. E não foi só isso, para me amedrontar mais ainda, pegamos um pedaço da Rodovia Presidente Dutra, e a primeira placa que vi informava '' Devagar, trecho com alto indice de acidentes ''. Mas tudo correu bem nesta parte da jornada, e depois que chegamos ao sitio, fui dar uma olhada pelos arredores, o lugar ficava no alto de um morro, e ao olhar para baixo, qual não foi minha surpresa ao ver lá embaixo um Gabriela da Viação Vila Galvão, parado em um ponto, só que este tinha como destino ' São Paulo-Metrô Armênia', pensei que era o mesmo ônibus que quase tinha nos matado, mas posteriormente descobri que não era, que aquele ônibus vinha do Picanço (que nome estapafurdio para um bairro ).

Recentemente, a bordo de um trenzão da linha F, voltando do lado escuro da Lua, passei pelas imediações de onde um dia foi o Hipermercado Paes Mendonça e hoje é outro mercado que não vou citar o nome para não fazer propaganda, enfim, ao passar por lá á bordo de um trem modelo 5500 reformado, lembrei que nos anos 80 e principios dos 90 saia do Metrô Penha um Gabriela que fazia o transporte gratuito do metrô ao mercado, era um Gabriela II com volantão branco da Flórida Turismo, eu diria até em bom estado de conservação. Nesta época havia uma vizinha que ia naquele Supermercado ao menos uma vez por semana e as vezes ela chamava minha avó e eu acabava indo junto. Eu odiava sair em companhia daquela mulher, ainda mais para ir ao mercado, pois ela tinha o costume de falar alto e rir mais alto ainda. Mas eu ia só para andar de ônibus, mesmo que isso significasse horas de nervoso pelos corredores do mercado (ela era aquele tipo de mulher que olha todas as prateleiras, compara todos os preços e não compra nada). Voltando a falar do ônibus, aquele Gabriela era lindo, estava sempre limpo e bem cuidado, eu só não entendia porque o motorista tinha que usar roupa social e gravata, aliás o motorista era um caso á parte, muitas mulheres pegavam aquele ônibus por causa dele, pois diziam que ele era a cara do Ronnie Von, eu claro, nem ligava para isso, para mim ele poderia ser gemêo do Papa, o que eu queria era sentar lá na frente para ver ele dirigindo e cobiçar o volante, mais uma vez imaginando quando seria a minha vez de manusear um daqueles. Lembro vagamente do trajeto, só lembro que era curto, o ônibus saia do metrô, dava uma volta por algumas ruas do bairro e seguia para o mercado, mas lembro que era demorado vir o coletivo, era apenas um e se bem me lembro ele saia do metrô a cada duas horas, sem contar que por ser gratuito ele lotava, as vezes a tal vizinha embaçava tanto no mercado que quando saiamos já era de noite e o Gabriela vinha cheio de trabalhadores das imediações que o pegavam para ir ao metrô.

Por volta de 1997, pouco antes daquele mercado fechar, voltei lá com minha mãe para fazer não lembro o quê. Ainda era a Flórida que operava aquela linha, mas agora não mais com um Gabriela e sim com um Thamco Aguia, fomos lá e na volta o ônibus simplesmente não apareceu, já havia uma fila enorme no ponto e nada, depois de esperar por quase duas horas, eu e minha mãe perdemos a paciência e voltamos de trem (Naquele tempo a estação Engenheiro Trindade ainda existia e ficava lá perto). Mas na década de oitenta era quase certo depois de um passeio destes eu chegar em casa, pegar meu volante e correr para o muro para 'dirigir' um Gabriela Flórida daqueles... Bons tempos.

Gabriela I : Esse deixa muita saudade, lembro muito destes coletivos com seu som de motor de caminhão (vale lembrar que o Gabriela I e II tinham o mesmo motor 1113 dos caminhões), e aquela traseira curvada me dava muito caos, talvez pelo fato das lembranças ruins serem referentes a traseira. Por exemplo, quando falei do Amélia Volvo no último relato, mencionei o tobogã e um Gabriela da Viação Ferraz, a última coisa que vi, foi a traseira curvada dele desaparecendo no tobogã, dei graças ao Todo Poderoso por não estar dentro daquele ônibus lotado.

Outra situação ruim, mas que assisti como espectador deu-se no dia que fui com meu pai ao Bairro dos Pimentas, em Guarulhos. Na divisa entre São Paulo e Guarulhos (que os basbaques insistem em chamar de 'Guarúio') a Av. Juscelino Kubitschek se torna uma parede! Até então eu nunca tinha visto uma rua tão ingreme. Mas o Amélia da Viação Poá aguentou bem o tranco. A 'coisa' aconteceu na volta, já em São Paulo, assim que descemos o 'paredão' eu vi um Gabriela I da Viação Poá, linha São Miguel – Bonsucesso, traseira curvada, volantão branco, vindo a milhão para subir a avenida. Novamente a ultima cena que lembro foi ver aquela traseira curvada e o ônibus avançando velozmente até desaparecer na curva (sim, porque, alêm de ser uma subida desgraçada, há uma curva fechada no meio, o cara que projetou aquela avenida deve ser doido!). Mas não parou por ai, no caminho, quando a tal avenida ainda tem o nome de Av. Dr. José Artur Nova, nas imediações da cidade Nitro operaria ( já em São Paulo) eu vi outro Gabriela I da mesma linha e mesma empresa, completamente lotado, e fiquei imaginando se, lotado daquele jeito, ele aguentaria subir o paredão, e não foi só aquele, vi um Gabriela II, desta vez da Viação Vila Any, também lotado, que seguia rumo ao paredão, aquele tinha um letreiro estranho: Tupinambá via Pimentas. Desnecessário dizer o quão fiquei aliviado de não estar dentro de nenhum deles. Isso sem contar que aquele lugar é bizarro e tétrico, como fica na imediações de uma empresa nitro quimica, o lugar mais lembra Gotham City, ou Cubatão. Tem fumaça para todo lado, pouquissimas casas, ninguem nas ruas e justamente este dia estava nublado... Infelizmente tudo muda neste mundo. Hoje já não tem mais ônibus nesta linha, só escrotas lotações, e a Viação Vila Any deixou de existir a muito tempo, só a nitro-quimica e a avenida estão lá, como um monumento a seus lunáticos criadores...

Mas tenho também algumas lembranças cômicas: Foi em um Gabriela I da Viação Ferraz que eu vi o motorista revoltado que espancava o câmbio. Foi assim, o piloto era um daqueles tipicos tipinhos do começo dos anos 90, cabeludo, barbudo, usava óculos escuros e camisa florida com cores berrantes, e parecia que neste dia estava de mal com o mundo, cada vez que ia trocar de marcha, ao invés de fazer isso como um homem civilizado, ele dava um tabefe na alavanca do câmbio, sem contar que fechava todo mundo, passava por sinais vermelhos e corria feito um piloto de formula 1. Alêm de bater na marcha, o cara ainda teve o dom de parar o ônibus em frente a uma padaria e descer só para comprar cigarros (ele comprou um maço de Belmont). Esse dia foi hilario, nunca imaginei, até então que houvesse gente tão revoltada no mundo. Como nesta época eu tinha uns oito anos e não perdia nenhum movimento dos motoristas, assim que cheguei em casa e fui para o muro com meu volante, tambêm passei o resto do dia espancando o cabo de vassoura que eu usava como câmbio. Sabem como é, criança imita tudo que vê os adultos fazendo.

Para encerrar este capitulo, duas lembranças que tambêm relato na condição de espectador. Certo dia que eu fui com meu pai até o ponto final da linha 2772 Jd. Nazaré – Metrô Penha, em um Gabriela II da finada Penha São Miguel, já com as cores do governo erundina (me recuso a escrever seu nome com letra maiuscúla), quando estavamos perto do ponto final da linha, ao cruzar a avenida Dom João Neri, vi em uma travessa o ponto final da linha 2027, na época Jd. Campos – Term. Aricanduva, e para minha surpresa havia dois Gabriela I estacionados lá, daqueles antigos, com capelinha e ainda usando saia amarela e blusa verde (tambêm da Penha São Miguel), e já que estou falando na ' falecida', meu último relato se desenvolve em 1997, logo que mudei para o lado escuro da Lua. Um dia voltando da escola, ao passar pela Avenida Imperador, na região do Pq. Guarani, eu vi, tambêm saindo de uma transversal um gabriela II, vermelho e branco da Penha São Miguel, que operava a absurda linha 273 H ( Shopping Aricanduva – Jd. Quisissana ). Cara, essa linha sim foi definitivamente um samba do engenheiro de trafêgo doido, pois eu, particularmente não consigo entender que raio do diabo essa linha fazia, sair de um bairro que fica em lugar nenhum e atravessar a zona leste para chegar em um shopping no outro extremo da região é ao meu ver coisa de maluco, vai ver que é por isso que o único coletivo da linha só rodava com o motorista e o cobrador, mas isso não vem ao caso, o que importa é que eu vi. Vi e no começo não acreditei, para mim aquela linha já havia deixado de existir a muito tempo, e ainda mais com um Gabriela, depois que assentei as idéias fiquei olhando aquele veterano, mas foi tudo muito rapido, ele apenas cruzou a avenida e desapareceu em uma rua lateral, depois deste dia, nunca mais tive noticias desta linha. O engraçado é que no Guia de ruas Quatro Rodas, versão 2005 ainda consta em algumas ruas de seu itinerario o número 273 H. Talvez seja uma linha fantasma, ou talvez mero erro de revisão...

E o Gabriela mais bizarro que já vi na vida foi nos anos 90, em uma viagem a Limeira, não lembro em que cidade foi isso, mas da estrada vi um Gabriela II que ostentava o exúberante nome de Viação Moça bonita. Imaginei que para piorar só faltava pintar nas laterais uma mulher com maiô dos anos 40, bem ao estilo Walter Lantz... cada uma.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h42
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Condor

 

Este era raro de se ver por ai, mesmo nos anos 80, e já que o assunto é sucata, vamos ao Santo Eduardo. Aconteceu pelos idos de 1988 ou 89, estava a familia reunida para um almoço de domingo na casa da minha finada Bisavó. Como já disse, desde a mais tenra idade sempre odiei sair de casa, sendo adepto do ditado "Boa romaria faz, quem em sua casa fica em paz", mas naquele tempo eu era criança e minha opinião valia tanto quanto uma nota de três reais. Pois bem, neste dia, depois do almoço, rolou um jogo de truco e acabamos saindo de lá por volta das 20:00, fomos ao ponto eu, minha mãe, meu pai, um tio, a esposa e os primos. Iriamos pegar um Intermunicipal da Viação Campo limpo que se não me falha a memória fazia a linha Embú(Vazame)-São Paulo(Pinheiros), como não poderia deixar de ser em um domingo, o ônibus demorou pra cacete, e quando veio, não era um ônibus, mas sim um projeto de carroça. Até que estava vazio, mas assim que entrou em São Paulo aquilo encheu de tal forma que ficou gente pendurada na porta, e pouco depois, aquele farrapo sobre rodas começou a engasgar, dar trancos, etc. E começaram os comentarios dos passageiros: Que cheiro de queimado! Ih, vai quebrar! Não tô gostando! È melhor descer! Sempre tem um mais entendido que diz: Deve ser o câmbio! Não é óleo no motor! e por ai foi, eu fiquei gelado quando o cobrador gritou lá do fundo: Volta pra garagem motorista. Eu acho que o piloto deve ter pensado nisso, mas diante da turba que prometia o diabo se o ônibus parasse ele seguiu em frente e o que é pior, pegando passageiros! O fato é que levamos bem mais de uma hora para chegar no Anhangabaú, e o irônico de tudo é que assim que desembarcamos, eu e a trupe, o cara acelerou e o ônibus seguiu firme como se nada tive acontecido. Por muito tempo pensei que aquilo era pessoal... Falando na " Campo lixo ", outra coisa que eu detestava naquela empresa era o maldito galo que eles pintavam em algumas carrocerias, tive muitos pesadelos por causa daquele galo quando tinha quatro, cinco anos, mas isso é passado. Hoje, pelo que sei, a Campo Limpo tambêm foi descredenciada em virtude do primoroso serviço oferecido a população.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h37
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Thamco

 

a primeira lembrança que quero comentar é acerca de um Thamco Aguia. Foi em uma excursão para o Museu da CMTC que a escola organizou na 3° Série. A CMTC disponibilizou para a escola um 'Thamcão' vermelho muito louco, dá pra imaginar a zona que um bando de bugres do mato, provenientes da escola municipal fez dentro do buso, zoamos, gritamos, fizemos o diabo, isso sem contar a festa no museu, eu por exemplo tive um grande sonho realizado. Desde a primeira visita, eu queria assumir o volante do Mônica que faz parte do acervo, mas por ser um dos últimos modelos preservados, havia uma grade impedindo o acesso ao volante dele (os outros ônibus eram liberados para a garotada), e toda vez que eu ia no museu, e foram mais de vinte visitas, eu escrevia no livro de visitas coisas do tipo: O museu é legal, pena que eu não posso brincar no Mônica. Gosto de vir aqui, mas queria brincar no Mônica. Liberem o Mônica, etc e tal. E justo no dia da excursão, o guia do museu disse que atendendo pedidos dos visitantes, a CMTC havia liberado o acesso ao Mônica! Para mim foi quase um prazer sexual, pela primeira vez essas mãos que agora escrevem, seguraram um volante branco e um Câmbio de verdade. Eu era pequeno e fracote, mas nesse dia soube me impor e ninguém teve coragem de tentar me tirar de lá, por mais que os outros garotos quisessem brincar tambêm. Só sai de lá depois que o professor e o guia me encheram muito o saco (depois, quando eles se descuidaram eu voltei) Foi um dos dias mais loucos da minha vida até então.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h36
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Monobloco O 371

 

Esse dai era o ápice da modernidade, tinham direção hidraulica e um diferencial, aquele sinal luminoso que informava 'parada solicitada'. Como a maioria deles circulava na Zona Norte e Centro, tive pouco contato com eles, mas peguei varios para ir á Casa Verde e ao Santo Eduardo, pois a São Luiz tinha um quadro numeroso deles, acho que era a única empresa da Z/S a ter um lote de Monobloco 0 371, o maior defeito deles era terem varios bancos invertidos como no metrô por exemplo, daquele tipo, um de frente para o outro, era horrivel viajar naqueles bancos, pois alêm de ficar de frente para um desconhecido, você não via porra nenhuma do que se passava, quantas vezes eu quase tomei um capote em freiadas bruscas por sentar nesses bancos, isso quando não era o cidadão da frente que vinha parar no seu colo. Creio que eles não se sairam bem no teste, pois não circularam mais que dez anos na cidade, bons de motor eu sei que não eram, pois era comum ver um deles quebrado pelas ruas. Quando a CMTC faliu, a maioria foi comprada por uma cooperativa da Zona Leste, o serviço oferecido era péssimo, tanto que era comum ver motoristas e cobradores consertando os veiculos no Metrô Belém, a cooperativa não funcionou mais que dois anos e grande parte dos Monobloco foi incendiada pelos funcionarios em protesto pela falência. Hoje que eu saiba, só um Monobloco 0 371 está em circulação. Quando não está quebrado por ai, circula na linha 3138: Jd. Ester-Pça do Correio, mas pelo que pude apurar, este veiculo não é remanecente da CMTC e sim um antigo carro da Viação Pássaro Marrom.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h35
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Vitória

 

Meu companheiro de muitas viagens no começo de minha vida em Itaquá. Embora eu não tenha por ele o mesmo frisson que tenho pelo Gabriela, diria que tenho certa simpatia por ele, é um ônibus bom, motor forte, mas acredito que veio tomar o lugar do Gabriela, talvez seja coisa da minha cabeça. Durante dois anos, eu ia para a escola em um Vitória do modelo mais antigo, com porta inteira de correr, ao invés daquelas mais modernas com folha dupla, lembro bem, era o 273N das 05:15 que raramente se atrasava, tinha o prefixo 07 930, Sempre que ele chegava ao ponto final, na Cidade Kemel II, por volta das 05:05, ficava dividindo espaço com seu 'irmão mais velho', um Ciferal da mesma empresa, que fazia ponto final ao lado e operava na extinta linha 2077 Cidade Kemel II- Terminal A.E. Carvalho, eles saiam quase ao mesmo tempo, mas logo o Vitória ficava para trás devido a maior demanda de passageiros. A linha 2077 não existe mais, e o ponto final da linha 273 N foi transferido para a Cidade Kemel I, sendo hoje muito raro ver um Vitória naquela linha, hoje infestada por Apaches S 21 e Apaches VIP, sendo raros até mesmo os bons e velhos Alphas. Quanto ao velho 07 930, depois que o ponto final mudou no fim de 1999, eu nunca mais o vi, mas não me espantaria de saber que ele esta depenado e encostado em algum patio do Consórcio Plús.

Quando me mudei para o lado escuro da Lua, já não tinha mais o costume de sair com meu pai aos sábados para andar de ônibus, mas na primeira semana lá, eu reavivei este costume. Naquele singular pedaço do inferno não havia nada para fazer, a imagem da tv era péssima, com torres de transmissão de energia para todo lado o sinal era muito fraco, mesmo com antena externa. Não tinha amigos, aliás, demorou para eu encontrar vida inteligente naquele fim de mundo, então só me restava andar de ônibus.

Domingo de manhã chamei meu pai, mas como agora o coroa ficava quatro horas dentro de um ônibus para ir e voltar do trabalho, no domingo a última coisa que ele iria querer era andar de ônibus. Pensei em chamar minha mãe, mas ela estava ocupada demais tentando ajeitar o apartamento depois da mudança, então fui sozinho, o coroa me deu dois contos (em 1997, dois reais eram dinheiro) e disse - Se você quer andar de ônibus vai, pega esse ônibus que sai ai da frente e vai até o final, assim você conhece a cidade. Dai eu fui. Na frente do condominio onde eu morava havia o ponto final de duas linhas que saiam de lugar nenhum e iam para o nada, mas eram suficintes para os malditos da imobiliaria anunciarem que havia "Ônibus na porta" do empreendimento. Falando sério, uma das linhas seguia para o Pq. Piratininga, na divisa com Guarulhos e a outra seguia para o Pq. Industrial, um lugar cheio de mato com meia dúzia de industrias. Cheguei no ponto disposto a pegar o primeiro que estivesse para sair mas como era domingo, não havia ônibus nenhum no ponto, depois de uns quinze minutos chegou um Vitória da Júlio Simões com destino ao Pq. Industrial e foi nele que sai para desbravar minha nova cidade. De fato deu para conhecer bem Itaquá e me dar conta do quão grotesca ela é, demos tanta volta que levamos vinte minutos para chegar no centro (a linha do Pq. Piratininga não leva mais que cinco), saindo do centro, o valente Vitória se afundou pelos sertões da cidade, passou por ruas que eu imaginava que nem trator passaria, havia chovido na noite anterior e as ruas se tornaram lamaçais, dai entendi o porque dos gabrielas já citados estarem naquele estado.

Enfim, chegamos ao Pq. Industrial, as ruas estavam vazias, claro, as fabricas estavam fechadas, não se via viva alma, mais uma vez, só fiquei eu lá dentro, dai chegamos no ponto final, ao lado de uma padaria que estava fechada. O cobrador viu que eu não descia e perguntou se eu havia pego o ônibus errado, eu expliquei para ele que só queria andar de ônibus e conhecer a cidade, dai ele deu risada e disse que se era assim, eu não precisava nem ter pago a passagem, era só falar. Como aquela linha era circular (não sei se ainda é) voltei naquele mesmo ônibus, e ainda fiquei amigo do cobrador, amizade esta que me valeu um passeio grátis ao Pq. Piratininga semanas depois, havia dito ao cobrador que gostava de andar de ônibus por ai, só pelo prazer de andar de ônibus mesmo, e em um domingo que ele fez a linha do Pq. Piratininga, me avisou com antecedência e permitiu que eu entrasse pela porta de trás, naquele dia fui em um Vitória mais baleado que o anterior e conheci um bairro muito pior que qualquer outro que tenha conhecido em Itaquá, e olhem que Itaquá é pródiga em bairros feios.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h34
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Atualmente

 

Hoje, quinze, vinte anos depois, muita coisa mudou, e eu temia que isso acontecesse, desde a infância tinha medo disso, muitas vezes quando saia para dar um rolê de ônibus nos anos 80 e começo dos 90, eu dizia a meu pai: Quando eu crescer, não vou poder dirigir esses ônibus porque eles já não vai mais existir, e infelizmente eu estava certo. Tudo mudou, o único remanecente daquela época que ainda tem certo espaço, principalmente na periferia é o Vitória, e vez por outra, ainda se pode encontrar um Urbanus, mas na maior parte, mesmo em cidades do interior e pasmem, até mesmo em locais tão distantes com : Rio Branco, Porto Velho, Manaus, quem dá as cartas é o Padron Milenium e os Apaches VIP. Em São Paulo, no fundão da Zona Sul circula um ou outro Ciferal Cidade baleado,  mesmo a Cooperauthon Zona Sul, considerada a pior empresa de São Paulo, prefere manter os Ciferal GLS vindos do Rio De Janeiro, eses são tão velhos que é possivel ver as marcas da cadeira do cobrador no lado esquerdo, na traseira do coletivo, ou seja, na Zona Sul estão circulando os ônibus da infância de algum carioca.(originalmente, quando escrevi isso, em 2006, a cooperauthon ainda não havia sido descredenciada) E nós pagamos por isso.

Para concluir: Alguêm já disse que as coisas nunca saem exatamente como a gente planeja, e parafraseando um autor, que em uma frase sintetizou tudo que eu quis dizer aqui: '' Cazuza já cantava, como um entrave amargo: ' O tempo não para' ''...

Poderia falar mais mais a respeito dos ônibus dos anos 80, contar histórias de Gabrielas , 0 364, 0 362, Bela Vista, Amélias, Ciferal, Marcopolo, e tantos e tantos outros, mas tudo isso só nos levará a um tempo sem internet, sem tv a cabo, quando celular era um devaneio, e telefone sem fio era aquele aparelho gigante que mal funcionava a 10 metros da base, quando a inflação era esquizofrênica e o Escort GLX era o sonho de consumo de todos, era um tempo diferente, onde quem mandava na tv aos domingos era Silvio Santos e Chacrinha. Hoje os tempos são outros, mais da metade das linhas e empresas citadas aqui já não existem mais, pessoas citadas aqui já não existem mais, naquele tempo nossa obrigação era brincar, hoje crescemos, viramos adultos, algo que quando criança, desejavamos loucamente. Como dizem os americanos ''cuidado com o que você quer, você pode conseguir''. Hoje alêm da barba, nossas responsabilidades tambêm crescem todo dia, assim sendo, e por não querer me prolongar em demasia, apresso me para colocar um ponto final.



Escrito por Ditão pé de meia às 22h33
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